terça-feira, 5 de outubro de 2010

DJ Grego (1956-2010)


“Mans!” Consigo ouvir seu bordão mais famoso direitinho, como se ele estivesse aqui do lado. Mas o DJ Grego não está, nem estará mais do lado de ninguém nesse mundo. Ele faleceu no seu apartamento em São Paulo, de causas aparentemente relacionadas a uma úlcera que ele nunca tratou. Tinha 54 anos e deixou dois filhos.


Que 2010 é esse, que nos tirou Ricardo Guedes e Lula e agora leva o Grego embora!

Difícil, ainda mais nesse momento, sufocado pela tristeza, resumir em palavras porque o Grego era tão especial.

Como amigo, ele, que nasceu mesmo na Grécia, batizado Ippocratis Bournelis, era generoso, leal, divertido, apaixonado, carinhoso, carismático, gentil, falador, festeiro e barulhento (apropriadamente, só escrevia com o CapsLock ligado).

Como DJ era simplesmente um dos melhores e mais importantes que já passou por esta terra. O Grego começou a tocar na largada dos anos 70. Foi por acaso, que era como rolava nesse tempo em que “DJ” e “carreira profissional” nunca estavam na mesma frase.

Logo, ficou evidente que ele tinha jeito pra coisa. O amor pela música já existia no sangue, claro, mas foi na discotecagem que ele encontrou o veículo perfeito para expressar esse sentimento.

E se tornou um dos melhores, senão o melhor do país. Tocou nas principais casas de São Paulo nos anos 70. Lançou um dos primeiros vinis mixados do país. Se chamava Maestro Mecânico e trazia umas dez faixas (metade de cada lado) sem interrupções. Na contracapa, fotos dele novinho (nem 20 anos tinha) no seu habitat natural: a cabine de som, que naquela época, significava um paredão com luzes, gravador de rolo e móvel de aço escovado.

Se nos anos 70, Grego virou rei em São Paulo, nos anos 80 seu reinado se estendeu pelo Brasil. Fazendo a transição, naquele tempo ainda rara, da cabine para o estúdio, Grego abraçou a arte da edição e do remix. Não era para os fracos: em tempos onde não existia software, os trabalhos eram fruto de pacientes horas e horas cortando e emendando pedaços de fita com gilete e fita adesiva. Logo, também passou a usar acessórios como bateria eletrônica e synths.

Seus edits viraram uma série de vinis chamados Montagens Exclusivas. Rapidamente, ele virou O cara no Brasil para reconfigurar músicas para a pista de dança.

Choveram trabalhos de remix para artistas como Kid Abelha, Metrô, Leo, Jamie e Gilberto Gil. Seu trabalho mais famoso foi para “Loiras Geladas”, do RPM. A música foi talvez o maior hit brasileiro de 1985, não o original, mas o remix do Grego.

Depois desse pico de produção e criatividade, os anos 90 viram Grego envolvido mais com trabalho ligado ao business musical. Ele morou em Miami um tempo e ficou de fora dos novos desdobramentos da música eletrônica por um tempinho.

Na década seguinte, o nome do DJ Grego correu risco de ficar esquecido na mal contada história da dance music no país, lembrado só pelo pessoal que estava no meio há mais tempo. Clau Assef, com seu livro Todo DJ Já Sambou, contribuiu muito para que o nome do DJ Grego fosse resgatado e apresentado às novas gerações.

Nos últimos anos, seu gás criativo parecia renovado. Inventou projetos musicais, gravou faixas e remixes (quase sempre ao lado do jovem parceiro Anthony Garcia), começou a tocar mais por aí e montou um programa de TV online filmando DJs que iam tocar na sua casa. Sempre com tesão, sempre com entusiasmo.

Casa essa que vivia cheia de gente, de parceiros das antigas a aspirantes que iam lá em busca de aprendizado e inspiração. Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, sempre resmungando sobre a cena atual, Grego curtia se conectar às gerações mais novas e ficar por dentro do que rolava. Ao mesmo tempo, sempre preocupado em manter viva a história e os fundamentos da cultura do DJ, da noite e da pista de dança.

Mans, a saudade que você vai deixar não tem tamanho. Mas tenha certeza que, pra todo mundo que tem amor por tudo isso que você ajudou a criar, você vai estar sempre por perto.

Camilo Rocha

sábado, 2 de outubro de 2010

Gui Boratto


DJ e produtor vira referência no exterior da nova música eletrônica feita no Brasil

Ele não usa bongôs ou atabaques em suas produções eletrônicas. Também não acelera nos beats para animar corpos ávidos nas pistas de dança. Mas apesar da ausência de atributos exoticamente latinos ou tipicamente dançantes, o produtor e DJ Gui Boratto se tornou o mais conhecido representante da música eletrônica brasileira no exterior. Virou a mesa do techno e fez as pessoas dançarem de forma diferente. Com uma linguagem melódica, lenta e minimalista ele vem conquistando a Europa - e recheando os sets de DJs de todo o mundo.

Hoje, com dois álbuns gravados pelo selo alemão Kompakt e de remixes assinados para artistas como Moby, Pet Shop Boys e Massive Attack, ele é figura fácil no line up dos mais importantes clubes europeus e festivais de música eletrônica. No ano passado, foi o único representante brasileiro na lista dos 100 melhores DJs do mundo da consagrada revista DJ Mag - ainda que 98ª posição, marcou presença. A faixa No Turning Back (do segundo álbum, Take My Breath Away) foi a sexta música mais comprada no Beatport, um dos maiores sites de venda online de música eletrônica para DJs. E essa mesma faixa ganhou o título de melhor música de minimal/techno na 25º Annual Internation Dance Music Awards (IDMA). A lista de premiações é extensa.

De volta de uma maratona de 28 apresentações na Europa, incluindo o Sonar, de Barcelona, e o segundo show no festival de jazz de Montreux, na Suíça, ele administra uma concorrida agenda de shows por todo o Brasil - em outubro, é a vez de se apresentar no festival SWU.
Mas apesar da complexidade tecnológica, tudo parece uma brincadeira de menino: com simples toques de dedo ele contagia a pista de dança, que lota quando começa o seu set. As pessoas se agitam quando escutam músicas mais conhecidas. Há uma cobrança por hits, ou o público de música eletrônica evolui junto com o produtor? "Eles querem ouvir músicas novas. Tanto que não toco mais Beautiful Life, ou só faço isso em cidades onde me apresento pela primeira vez." Pergunto ainda se a mecânica não acaba se repetindo nas inúmeras apresentações. "Cada uma é diferente", garante. "Brinco e improviso. Aumento os vazios, mudo o tempo de alguns trechos e faço viradas diferentes."

Em meio ao público dançante na faixa dos 20 anos, um garoto no gargarejo da cabine fotografa o produtor sem parar com o seu celular, e vibra mais do que todos os outros. "Já vi uns dez shows do Gui, tanto em São Paulo como em Santa Catarina", conta o fã, Jorge Fernando Briner, estudante paulistano de 22 anos. "A música dele é diferente dos outros DJs que seguem uma única vertente. Ele mistura techno e tech-house, e acaba fazendo um som autoral." Na confusão de rótulos da música eletrônica, o próprio Boratto classifica seu som como tendo um pouco de house, minimal e trance... até chegar na definição de emo-techno.

A música orgânica corre em suas veias desde cedo. O caçula de quatro irmãos teve avô maestro, Noé Lima. Só que logo foi fisgado por outro estilo mais visceral, digamos, que o erudito. Aos 9 anos, o pequeno Guilherme rendeu-se aos altos decibéis do rock: adorava Kiss e Black Sabath. Começou a insistir com a mãe para fazer aulas de guitarra - mas ela só aquiesceu ao pedido quando ele concordou em aprender piano ao mesmo tempo. "Ia de cara amarrada para a aula de piano e ficava a semana inteira tocando guitarra", lembra ele, que logo valorizaria o aprendizado com o teclado.

Teve várias bandas de rock. Mas no meio dos anos de 1980, começou a construir uma ponte: encantou-se pelos sintetizadores e passou a explorar suas sonoridades. Na transição, integrou o grupo de dance Sect e trabalhava criando música para publicidade. E passou a produzir artistas tão ecléticos como Daniela Mercury e Peninha, e trabalhar com nomes como Pato Banton (produção), Manu Chao (remixes), Fernanda Porto (composição) e Steel Pulse (produção). Até para a clássica Construção, de Chico Buarque, ele assinou um remix com Zé Pedro.

Mas o pulo do gato aconteceu quando ele foi convidado a remixar duas faixas da trilha do filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Pela primeira vez, ele assinou as faixas com o seu nome, com um tremendo retorno positivo. Foi então que em 2005 trouxe à tona composições autorais como Arquipélago. Só que não ouviu elogios no primeiro momento. "Mostrei a música para DJs brasileiros conhecidos da época e eles acharam lento, devagar", lembra. Mas Michael Mayer, um dos diretores da Kompakt e figura chave da cena eletrônica alemã como DJ e produtor, gostou tanto do material que propôs gravarem um álbum inteiro. Bastaram poucos meses para os DJs brasileiros tocarem sua música.

No momento, ele está finalizando um remix para uma composição de Mayer e já trabalha no material do terceiro álbum, previsto para sair no começo de 2011 pelo mesmo selo alemão, e pela 3 Plus/ ST2 no Brasil. "É gostoso o reconhecimento. Também me sinto bem abrindo portas para outros produtores brasileiros." Ao que atribui tamanho sucesso internacional? "Músicas como Beautiful Life abriram portas para um público diferente, que não gosta necessariamente de música eletrônica. Então tenho dois públicos: do cara mais underground e especialista até o mais mainstream."

AS APOSTAS DE BORATTO

Depois da invasão europeia estrelada pelo drum and bass do DJ Marky, Gui Boratto integra uma segunda geração que produz as próprias músicas e desponta no planeta. "Há ótimos DJs brasileiros, mas ainda poucos produtores. O Brasil saiu atrás nisso", diz. Mesmo assim, anima-se ao falar sobre novos talentos nacionais em diversas vertentes da música eletrônica.

Hoje, as fronteiras entre produtores e DJs estão mais fluidas. "As duas áreas estão próximas e usando a mesma linguagem." Sobre o DJ clássico, que seleciona música de repertórios alheios, ele recomenda a ação de um educador de ouvidos. "Ele deve insistir em mostrar músicas novas: as pessoas vão aprendendo a gostar. É assim que surgem micromovimentos. É preciso dosar a medida entre agradar e educar." Abaixo, ele elege suas apostas entre produtores brasileiros que também atuam como DJs.

- o multiartista (e também arquiteto) DaDa Attack (Saulo Pais)

- o duo de house Dubshape (de Alê Reis e João Lee, filho de Rita Lee)

- o techno do Click Box (dos produtores Marco AS e Pedro Turra)

- Killer on the Dance Floor (dos DJs e produtores Phillip A, Ali Disco B e Fatu)

- Propulse (do produtor Fabiano Zorzan)

- Dudu Marote (ou Prztz, como é conhecido agora)

- o duo carioca The Twelves (de João Miguel e Luciano Oliveira)

TOP TEN CASEIRO

Quando escuta música em casa, a seleção de Gui Boratto passa pelas bandas dos anos de 1980 que tatearam a fronteira entre o rock e o eletrônico nascente. Mas ele também se emociona com Piazzolla, Tom Jobim... Abaixo, o top ten que fez especialmente para o Estado.

1. Adiós Nonino, Astor Piazzolla

2. Águas de Março, Tom Jobim

3. Save a Prayer, Duran Duran

4. Situation, Yazoo

5. Everybody Wants To Rule The World, Tears for Fears

6. The Killing Moon, Echo & the Bunnymen

7. Black Planet, The Sisters of Mercy

8. Sweetest Perfection, Depeche Mode

9. The Perfect Kiss, New Order

10. The day I tried to live, Soundgarden


Fabiana Caso - O Estado de S. Paulo