DJ e produtor vira referência no exterior da nova música eletrônica feita no Brasil
Ele não usa bongôs ou atabaques em suas produções eletrônicas. Também não acelera nos beats para animar corpos ávidos nas pistas de dança. Mas apesar da ausência de atributos exoticamente latinos ou tipicamente dançantes, o produtor e DJ Gui Boratto se tornou o mais conhecido representante da música eletrônica brasileira no exterior. Virou a mesa do techno e fez as pessoas dançarem de forma diferente. Com uma linguagem melódica, lenta e minimalista ele vem conquistando a Europa - e recheando os sets de DJs de todo o mundo.
Hoje, com dois álbuns gravados pelo selo alemão Kompakt e de remixes assinados para artistas como Moby, Pet Shop Boys e Massive Attack, ele é figura fácil no line up dos mais importantes clubes europeus e festivais de música eletrônica. No ano passado, foi o único representante brasileiro na lista dos 100 melhores DJs do mundo da consagrada revista DJ Mag - ainda que 98ª posição, marcou presença. A faixa No Turning Back (do segundo álbum, Take My Breath Away) foi a sexta música mais comprada no Beatport, um dos maiores sites de venda online de música eletrônica para DJs. E essa mesma faixa ganhou o título de melhor música de minimal/techno na 25º Annual Internation Dance Music Awards (IDMA). A lista de premiações é extensa.
De volta de uma maratona de 28 apresentações na Europa, incluindo o Sonar, de Barcelona, e o segundo show no festival de jazz de Montreux, na Suíça, ele administra uma concorrida agenda de shows por todo o Brasil - em outubro, é a vez de se apresentar no festival SWU.
Mas apesar da complexidade tecnológica, tudo parece uma brincadeira de menino: com simples toques de dedo ele contagia a pista de dança, que lota quando começa o seu set. As pessoas se agitam quando escutam músicas mais conhecidas. Há uma cobrança por hits, ou o público de música eletrônica evolui junto com o produtor? "Eles querem ouvir músicas novas. Tanto que não toco mais Beautiful Life, ou só faço isso em cidades onde me apresento pela primeira vez." Pergunto ainda se a mecânica não acaba se repetindo nas inúmeras apresentações. "Cada uma é diferente", garante. "Brinco e improviso. Aumento os vazios, mudo o tempo de alguns trechos e faço viradas diferentes."
Em meio ao público dançante na faixa dos 20 anos, um garoto no gargarejo da cabine fotografa o produtor sem parar com o seu celular, e vibra mais do que todos os outros. "Já vi uns dez shows do Gui, tanto em São Paulo como em Santa Catarina", conta o fã, Jorge Fernando Briner, estudante paulistano de 22 anos. "A música dele é diferente dos outros DJs que seguem uma única vertente. Ele mistura techno e tech-house, e acaba fazendo um som autoral." Na confusão de rótulos da música eletrônica, o próprio Boratto classifica seu som como tendo um pouco de house, minimal e trance... até chegar na definição de emo-techno.
A música orgânica corre em suas veias desde cedo. O caçula de quatro irmãos teve avô maestro, Noé Lima. Só que logo foi fisgado por outro estilo mais visceral, digamos, que o erudito. Aos 9 anos, o pequeno Guilherme rendeu-se aos altos decibéis do rock: adorava Kiss e Black Sabath. Começou a insistir com a mãe para fazer aulas de guitarra - mas ela só aquiesceu ao pedido quando ele concordou em aprender piano ao mesmo tempo. "Ia de cara amarrada para a aula de piano e ficava a semana inteira tocando guitarra", lembra ele, que logo valorizaria o aprendizado com o teclado.
Teve várias bandas de rock. Mas no meio dos anos de 1980, começou a construir uma ponte: encantou-se pelos sintetizadores e passou a explorar suas sonoridades. Na transição, integrou o grupo de dance Sect e trabalhava criando música para publicidade. E passou a produzir artistas tão ecléticos como Daniela Mercury e Peninha, e trabalhar com nomes como Pato Banton (produção), Manu Chao (remixes), Fernanda Porto (composição) e Steel Pulse (produção). Até para a clássica Construção, de Chico Buarque, ele assinou um remix com Zé Pedro.
Mas o pulo do gato aconteceu quando ele foi convidado a remixar duas faixas da trilha do filme Cidade de Deus, de Fernando Meirelles. Pela primeira vez, ele assinou as faixas com o seu nome, com um tremendo retorno positivo. Foi então que em 2005 trouxe à tona composições autorais como Arquipélago. Só que não ouviu elogios no primeiro momento. "Mostrei a música para DJs brasileiros conhecidos da época e eles acharam lento, devagar", lembra. Mas Michael Mayer, um dos diretores da Kompakt e figura chave da cena eletrônica alemã como DJ e produtor, gostou tanto do material que propôs gravarem um álbum inteiro. Bastaram poucos meses para os DJs brasileiros tocarem sua música.
No momento, ele está finalizando um remix para uma composição de Mayer e já trabalha no material do terceiro álbum, previsto para sair no começo de 2011 pelo mesmo selo alemão, e pela 3 Plus/ ST2 no Brasil. "É gostoso o reconhecimento. Também me sinto bem abrindo portas para outros produtores brasileiros." Ao que atribui tamanho sucesso internacional? "Músicas como Beautiful Life abriram portas para um público diferente, que não gosta necessariamente de música eletrônica. Então tenho dois públicos: do cara mais underground e especialista até o mais mainstream."
AS APOSTAS DE BORATTO
Depois da invasão europeia estrelada pelo drum and bass do DJ Marky, Gui Boratto integra uma segunda geração que produz as próprias músicas e desponta no planeta. "Há ótimos DJs brasileiros, mas ainda poucos produtores. O Brasil saiu atrás nisso", diz. Mesmo assim, anima-se ao falar sobre novos talentos nacionais em diversas vertentes da música eletrônica.
Hoje, as fronteiras entre produtores e DJs estão mais fluidas. "As duas áreas estão próximas e usando a mesma linguagem." Sobre o DJ clássico, que seleciona música de repertórios alheios, ele recomenda a ação de um educador de ouvidos. "Ele deve insistir em mostrar músicas novas: as pessoas vão aprendendo a gostar. É assim que surgem micromovimentos. É preciso dosar a medida entre agradar e educar." Abaixo, ele elege suas apostas entre produtores brasileiros que também atuam como DJs.
- o multiartista (e também arquiteto) DaDa Attack (Saulo Pais)
- o duo de house Dubshape (de Alê Reis e João Lee, filho de Rita Lee)
- o techno do Click Box (dos produtores Marco AS e Pedro Turra)
- Killer on the Dance Floor (dos DJs e produtores Phillip A, Ali Disco B e Fatu)
- Propulse (do produtor Fabiano Zorzan)
- Dudu Marote (ou Prztz, como é conhecido agora)
- o duo carioca The Twelves (de João Miguel e Luciano Oliveira)
TOP TEN CASEIRO
Quando escuta música em casa, a seleção de Gui Boratto passa pelas bandas dos anos de 1980 que tatearam a fronteira entre o rock e o eletrônico nascente. Mas ele também se emociona com Piazzolla, Tom Jobim... Abaixo, o top ten que fez especialmente para o Estado.
1. Adiós Nonino, Astor Piazzolla
2. Águas de Março, Tom Jobim
3. Save a Prayer, Duran Duran
4. Situation, Yazoo
5. Everybody Wants To Rule The World, Tears for Fears
6. The Killing Moon, Echo & the Bunnymen
7. Black Planet, The Sisters of Mercy
8. Sweetest Perfection, Depeche Mode
9. The Perfect Kiss, New Order
10. The day I tried to live, Soundgarden
Fabiana Caso - O Estado de S. Paulo